No último sábado assisti ao evento de colação de grau de minha prima, que se formava em Medicina pela UniRio, e relembrei um aspecto que, acredito, tornou-se parte desse ritual na contemporaneidade (ao menos pelo que tenho observado nos últimos quase dez anos no Rio de Janeiro em faculdades públicas): a escolha de músicas pelos formandos no momento em que vão receber publicamente seu diploma (ok, nem sempre entregam de fato o diploma neste momento, mas é a simbologia do ritual que conta). O que me chama a atenção nisso é a utilização de música como elemento claramente de auto-expressão daqueles jovens que se formavam. A música escolhida por cada um parecia realmente ser uma forma de o(a) formando(a) dizer – implicitamente – ou o que aquele momento significava para ele(a) ou o que seriam traços de sua personalidade ou trajetória, aspectos identitários seus.

Houve aqueles, por exemplo, que escolheram músicas como “I feel good” (versão clássica do James Brown, claro), representando como se sentiam bem no momento da formatura, ou ainda “Tempos Modernos” (do Lulu Santos), especialmente o refrão que diz “Hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos”, simbolizando como aquela longa trajetória acadêmica (e na Medicina é longa meeesmo) havia chegado ao fim (ao menos parcialmente) com a sensação de que, no final das contas, foi ligeira. Esses seriam exemplos relacionados ao significado do momento para esses jovens.
Houve outros, como apontei, que escolheram músicas relacionadas a traços identitários seus, como músicas “regionais” (na turma em questão havia uma boa quantidade de alunos que não eram do Rio de Janeiro), que remetiam às cidades de origem dos formandos, ou ainda músicas como “Mulher de Fases” do extinto Raimundos, escolhida por uma formanda que provavelmente se considerava ou é vista pelos outros como uma mulher que muda de humor com frequência e/ou como “complicada e perfeitinha”, como diz o refrão.
E aí me parece que havia músicas escolhidas mais pelas suas letras – como esta dos Raimundos, do James Brown e do Lulu – e outras mais por sua sonoridade, pelos instrumentos, melodia e outros aspectos – como as que estou chamando (problematicamente, sem dúvida) de “regionais”. E cabe ainda destacar o recorte – nada aleatório – que esses formandos fazem das músicas escolhidas, tendo em vista que, em geral, são tocados apenas 30 segundos de cada música, dada a grande quantidade de formandos. Assim, em sua maioria, eram escolhidos 30 segundos do refrão, recortando conscientemente aquele trecho mais significativo das músicas.
Na tese de doutorado investiguei como determinadas pessoas – relacionadas de algum modo a cenas de música eletrônica no Rio e São Paulo – se auto-apresentavam no Facebook e um dos aspectos que me chamou a atenção foi a apropriação de músicas e imagens para expressarem – implicitamente, sem verbalizar com suas próprias palavras – como estavam se sentindo no momento e/ou como se veem e/ou querem ser vistos pelos outros. Vale lembrar que é claro que nem sempre há esse “encaixe” certinho, entre o que a pessoa acha que está “transmitindo” com aquela escolha e o que os outros interpretarão (o que chamamos na tese, com base no Goffman, de busca por uma “coerência expressiva” ou um ideal de “coerência expressiva”). E que nem todas as escolhas são conscientes. Mas o ponto é que, entendendo em um contexto mais amplo como nossas práticas de consumo fazem parte das nossas dinâmicas complexas de construção (e eterna reconstrução) identitária, a música – tida como “material cultural por excelência da emoção e do pessoal” (segundo DeNora no ótimo Music in Everyday Life) – talvez não tenha sido explorada o suficiente ainda para pensar essas dinâmicas.
Fica ainda muito debate pela frente e a lembrança da música que eu mesma escolhi na minha formatura, anos e anos atrás: “Cemetery Gates”, do Pantera. Certamente não foi pela letra que a escolhi, mas pela sonoridade e desejo de impactar a audiência (ok, eu era bastante jovem e me julgava “rebelde”), de não ter a mesma música escolhida por outro(a) formando(a) (aqui era claramente era uma questão de busca por distinção, diferenciação entre os demais) e também de fazer uma homenagem ao meu namorado da época, lidando com uma ideia de capital afetivo, que já é papo para outro post. 😉