“Em todas as exemplificações do sertanejo-nordestino estereotipado está presente a valorização de seus atributos de coragem e resistência para enfrentar as dezenas de adversidades do sertão contra as quais ele se depara cotidianamente: a natureza cruel, as explorações do trabalho, a seca, a pobreza, a fome, a violência” (TROTTA, Felipe – Som de cabra-macho: sonoridade, nordestinidade e masculinidades no forró. 2012, p. 156).
Assim como no forró e em outros gêneros musicais, o rock também apresenta negociações identitárias com referenciais de valentia e masculinidade. Em meio a tais negociações, determinadas sonoridades, instrumentos e performances musicais são acionados em um grande jogo de legitimidade. No rock, a guitarra em alto volume ocupa um papel central, muitas vezes acompanhada de ritmo acelerado e uma certa “safadeza escrachada”, não só nas letras, mas em grande parte de sua construção musical.


Os Raimundos apropriam-se do modelo de “macheza” nordestina para se legitimarem, não apenas nas letras sacanas, mas também perante a própria construção do rock nacional, que busca constantemente raízes na música brasileira tradicional. Originados em Brasília, os Raimundos incorporaram o forrozeiro pernambucano Zenilton às suas influências.
“Minha família é da Paraíba, e eu me lembro que desde os dez anos, eu sempre ia naqueles churrascos familiares com os meus pais. Tocava forró o tempo inteiro, e eu achava aquilo um saco. Só gostava das músicas do Zenilton, por causa das letras sacanas, achava aquilo muito fera”, relata Rodolfo, ex-vocalista da banda*.
Em seu primeiro disco, os Raimundos gravaram canções do forrozeiro Zenilton, e contaram com a participação do mesmo em algumas faixas. As canções surgem aceleradas, barulhentas e com os jogos de duplo sentido característicos do forrozeiro. No entanto, em suas composições próprias, a banda deixará o duplo sentido de lado, falando abertamente sobre sexo, drogas, dor de corno e masculinidades relacionadas à ideia do “macho viril”.


São exemplos como: Puteiro em João Pessoa, que narra a perda de virgindade do jovem Dudu no puteiro Roda Viva: “pois tu sabe na família nunca teve afrescalhado / chagar no Roda Viva tu vai ser homenageado”; Carro Forte, que compara a mulher ao carro, em uma associação entre masculinidade e a potência das máquinas automobilísticas, também muito comum no forró; Bê a Bá, que traz na letra toda a representação identitária nordestina, entre cabras safados, pistoleiras, cachaça, Lampião, e o acréscimo da maconha na narrativa, tema muito abordado pela banda. Fechando o disco, a balada-brega Selim, com letra explicitamente sexual e o desejo do autor em se tornar o banquinho da bicicleta, “pra ficar bem no meio das pernas”.
O hardcore dos Raimundos (batizado de forrócore) surge então com esta mistura de tradicionalismo nordestino; mas aqui, urbanizado e globalizado pela mistura com o rock e sonoridades características ao gênero musical em vigor naquela época. Ramones e o hardcore californiano dos anos 90 são referências para a banda. Revalorizando o sertão arcaico, os Raimundos narram o universo rural a partir da visão da juventude urbana. Como explica Felipe Trotta:
“Num mercado cultural globalizado e voltado para o jovem, a ideia de modernização passa a ser uma necessidade latente. O vaqueiro, o peão e o próprio sertão não são mais, necessariamente, exclusividade da identidade nordestina, mas podem se tornar referenciais jovens, articulados ao universo do mundo pop, mas mantendo referências ao imaginário rural modernizado” (2012, p. 162).
Após seu primeiro disco, os Raimundos ainda gravariam mais algumas músicas do forrozeiro Zenilton (“O Pão da Minha Prima” e “Tá Querendo Desquitar”) em seu segundo álbum, “Lavô Tá Novo”.


Porém, a banda abandonaria aos poucos as referências nordestinas, concentrando-se no hardcore e mantendo as letras sacanas e escrachadas. Já legitimada nacionalmente por sua associação com o “macho agrário do sertão”, os Raimundos lançariam muitos hits de sucesso, até a saída do vocalista Rodolfo, que, talvez cansado do excesso de escracho e das drogas, converteu-se à religião evangélica por volta de 2001.

*Fonte: http://whiplash.net/materias/biografias/038402-raimundos.html#ixzz2VLqgRq2Q