Um divertido vídeo com a repórter Elenice Laguardia, do Jornal O Tempo (MG), anuncia a chegada da loja iTunes Music Store no Brasil (que iniciou suas atividades em dezembro de 2011). A jornalista descreve o funcionamento da renomada loja da Apple, apresentando questões que revelam algumas das ansiedades vividas em tempos de mídias digitais. Antes de pronunciar a hilária pergunta “será que vamos virar todos digitais?”, a repórter faz referência a algumas das vantagens anunciadas na chegada da iTunes ao Brasil: a loja de músicas possui um catálogo com mais de 20 milhões de canções, incluindo álbuns inteiros de ícones da música brasileira.
Mas, uma característica fundamental que difere o mega catálogo musical da Apple de outras coleções passa pela questão da materialidade. CDs, vinis, fitas-cassete e livros, nós carregamos e manuseamos, em uma relação extremamente táctil com tais artefatos. Isto nos remete a determinadas características fundamentais do MP3 descritas por Jonathan Sterne em seu artigo “O MP3 como um artefato cultural” (2010).
Segundo Sterne, os MP3s “são importantes precisamente porque são úteis, mas, na prática, não chamam atenção para si”. Mais ainda: quando são escutados, “são experimentados enquanto música, não enquanto formatos de arquivo” (pag 67). Na prática cotidiana, o MP3 ganha status de objeto, apesar de ser um arquivo digital. No entanto, eles vêm sendo objetificados “como artigos de propriedade intelectual” (pag 71), encontrando-se como principal agente de toda uma disputa em torno do cenário digital.
Logo, como enfatiza o autor, antes de discutirmos questões legais, econômico-políticas e culturais do compartilhamento de arquivos, não podemos esquecer que, apesar de serem tratados como objetos tácteis, os MP3 são arquivos digitais, e tal fator desloca toda a questão de seu contexto abordado.
Finalmente, o final do vídeo ilustra a mistura de conceitos que vem acontecendo, não apenas no jornalismo: artefatos, arquivos, objetos, postos todos juntos em um mesmo caldeirão de conceitos. Será que ainda existirão os amantes de vinis, fitas-cassete, CDs, em meio ao avanço da indústria digital?
Provavelmente sim!