As lutas, disputas e negociações relacionadas ao papel da mulher na sociedade vêm entrando fortemente em pauta nos últimos meses. Organizações como a Marcha das Vadias e movimentos de rock feminino (como é o caso da prisão da banda Pussy Riot) têm levantado o debate sobre disputas relacionadas a feminilidades. Apesar de determinados (porém lentos) avanços ao longo dos últimos séculos (com leis benéficas e o levantamento de alguns debates), as mulheres ainda hoje sofrem as mazelas de uma sociedade determinada pelo machismo e o papel opressor do patriarcalismo. Para citar um exemplo, um caso amplamente denunciado no festival Roque Pense: a cada cinco horas, acontece um estupro na Baixada Fluminense (RJ).
O Roque Pense surge, então, como um contraponto e um campo de disputas simbólicas relacionadas ao tema. O grupo organizador do festival é, na verdade, um coletivo de agentes culturais da Baixada Fluminense que surgiu em 2010 através de um fanzine, o “Let’s Pense”, criado por Giordana Moreira e Paulo Vítor. Aos poucos, os dois agentes passaram a organizar oficinas, rodas de debates e conferências relacionadas ao papel da mulher na sociedade. Criaram também a Rádio Web Roque Pense, e outros agentes culturais foram se juntando à dupla, no esforço da criação de um circuito roqueiro antissexista na baixada fluminense. Desta forma, o grupo organizou, em 2012, a primeira edição do festival Roque Pense, em Nova Iguaçu (RJ).

É, portanto, com este caráter militante e contestatório relacionado a séculos de opressão masculina sobre o lugar da mulher na sociedade que o Festival Roque Pense se levanta. A militância antissexista torna-se evidente, por exemplo, em um boletim divulgado pelo grupo, que pode perfeitamente funcionar como um manifesto:
“O Roque Pense assume, através deste boletim, um posicionamento que vai na contramão do que está estabelecido para todas as mulheres, e particularmente, para as mulheres que fazem parte das culturas e expressões artísticas contestadoras e alternativas. Assume que não dá para ser livre sem reconhecer que existem desigualdades, e que isso incomoda, violenta e limita as mulheres. E apesar de conquistar a cada dia sua liberdade, não adianta ser livre individualmente, se a sociedade é sexista e está a cada dia menos humana. Assumimos que também devemos mudar essa sociedade”.
O boletim explica também conceitos básicos acerca do sexismo e seus males:
“Sexismo é a discriminação pelo sexo. Discriminar alguém por ser mulher ou homem, através de formas de comportamento e ideologias nas quais são atribuídas funções e capacidades a indivíduos ou grupos simplesmente por causa do sexo a que pertencem. Historicamente a mulher é quem sofre sexismo”.
As ações promovidas pelo grupo não se limitam à música, denotando um caráter de circuito cultural de cunho politizado, evidente até mesmo no nome. Antes do início oficial do festival, o Roque Pense organizou duas sessões de cineclubismo: uma em Duque de Caxias (o Mate Pense, em parceria com o cineclube Mate Com Angu) e outra em Nova Iguaçu, no Cineclube Buraco do Getúlio, a qual participei e resenhei. O festival contou com patrocínio do Edital Petrobras Cultural 2012 e foi realizado em parceria com a Terreiro de Ideias.

A primeira ação realizada em Mesquita foi a Roda de Ideias Causando na Baixada: de Armanda ao Roque Pense (às 13hs do dia 18/10), debatendo a participação política e cultural feminina na Baixada Fluminense. Outras ações também aconteceram durante o festival: as oficinas destinadas a mulheres “Recursos de áudio para shows” e “Produção executiva para shows” (no sábado, 19/10); e a Jam Session de Skate Girls in Ação, no domingo, 20/10. Os shows também contaram com DJs (Pimenta Pime, Rodrigo Cavalcanti e Karina Gomez) nos intervalos e transmissão online.
Os discursos e ações afirmativas de feminilidades também aconteceram durante todo o festival. Paulo Vitor abria oficialmente a noite de shows anunciando: “declaro que Mesquita é a nova capital do rock e agora também a capital das mulheres. Isso aqui é de vocês! Uma salva de palmas às mulheres!”. Logo depois, Giordana Moreira subiu ao palco e falou sobre a homenageada do Roque Pense, Armanda Álvaro Alberto, militante visionária da Baixada Fluminense que lutava pela emancipação das mulheres nos anos 20 e foi presa diversas vezes como agitadora política. Giordana lançou então uma hashtag no festival, pedindo para todos postarem em suas redes sociais: #somostodasarmanda

Os embates e ações afirmativas também aconteceram nas apresentações musicais. O simples fato de se ter o rock escolhido como símbolo do empoderamento feminino já denota um campo de negociação. O rock n’ roll é um estilo que desde o início é ligado à ideia de transgressão, sexualidade e empoderamento da juventude. Seu ritmo acelerado, instrumentos barulhentos e vocais altos ou gritados sugerem força e virilidade. Desde o início é também ligado a temáticas sexuais, seja no ritmo convidativo à dança ou nas letras das músicas. Contou com artistas transgressores como Little Richard (talvez o primeiro roqueiro a se apresentar maquiado e assumir em público sua homossexualidade) e Jimi Hendrix, que além de exímio guitarrista, possuía uma performance extremamente sexual relacionada à sua guitarra.
As mulheres foram, aos poucos, se apoderando do gênero: de Janis Joplin à Patti Smith, até finalmente surgir, em 1975, a primeira banda totalmente formada por mulheres: as Runaways. A partir daí, diversas bandas de meninas foram despontando, debatendo – de diferentes maneiras – o papel da mulher na sociedade; atingindo ares de militância com o surgimento do movimento Riot Grrrls, de bandas feministas, capitaneadas pelos grupos Bratmobile e Bikini Kill.
Sendo assim, as performances, o discurso e a música são elementos que se unem de forma a negociar – de maneira positiva ou negativa – exigências sociais relacionadas à sexualidade humana e divisões não-igualitárias de gênero. Por exemplo: a performance vocal de uma mulher no palco já pode ser utilizada como forma de negociação de gêneros. Na primeira noite do festival, as duas primeiras bandas (Algoz e Canto Cego) contavam com cantoras de voz grave. Esta performance vocal, aliada ao estilo ruidoso do rock, sugere uma negação do papel submisso da mulher, cabisbaixa, que não deve levantar a voz em nenhuma situação. É também um contraponto ao ideal de voz grave relacionada ao masculino e voz aguda ao feminino. A palavra dita em tom alto e grave sugere poder e força. Ainda que existam gradações e muitas exceções, esta divisão costuma ser muito utilizada em nossa sociedade.

Um grande contraponto a isso pode-se notar na banda Visceral Leishmaniasis. O grupo, de som agressivo (um death/gore metal), conta com Luanna Nascimento, cujo vocal já é em si mesmo, uma tomada simbólica de terreno do papel da mulher na sociedade: a voz gutural, com a técnica de puxada de ar ao cantar (ao invés de arranhar a garganta), simula força, poder e agressividade. Ao fecharmos os olhos, não sabíamos se era homem ou mulher ao microfone. Este é um recurso que vem sendo cada vez mais acionado por bandas femininas de metal, com muitas mulheres utilizando vocal gutural e ressignificando a questão da voz feminina na música. A instrumentação da banda – baixo, bateria e guitarra em ritmo caótico – trabalha em conjunto com a voz gutural, simulando tensão e agressividade.
Funcionando de forma oposta, a banda Eve Desire (que tocou no mesmo dia, 18/10) possui uma cantora lírica, Arya Medeiros. Sua voz traz em si a evidência da presença feminina e do que se espera de uma mulher cantando: um vocal agudo, um canto lírico sugerindo beleza, melodia e sensualidade. Ao fecharmos os olhos, sabíamos perfeitamente que a mulher estava presente na música – ao contrário da Visceral Leishmaniasis. Mas, o metal lírico também negocia o papel da mulher, principalmente por contrapôr a beleza de um canto já esperado feminino com a agressividade dos instrumentos e o tom grave e alto de guitarra, bateria e baixo (também contraposto aos teclados da banda). Desta forma, esta união – beleza e barulho; canto lírico e heavy metal – trabalha por remodelar ideias e conceitos pré-estabelecidos.

O pesquisador Jeder Janotti, no artigo Rock With The Devil: notas sobre gêneros e cenas musicais a partir da performatização do feminino no heavy metal (2013) , analisa feminilidades nas bandas Crucified Barbara (Suécia) e Panndora (Brasil). Jeder Janotti afirma que “não basta a uma ‘banda de garotas’ afirmar-se como uma banda de peso. Ser mulher no universo do metal é fazer emergir o feminino, mas um feminino que se corporifica em meio à distorção e à autenticidade que a intensidade sonora do heavy metal evoca” (pág. 4). O autor ressalta as negociações de feminilidades no gênero heavy metal e o papel das sonoridades e simbolismos do metal nestes embates. Janotti ressalta uma rearticulação de valores outrora masculinos, mas desta vez pela mediação do feminino:
“O feminino negocia e emerge em meio a um espaço sonoro de intensidade extrema, de alto volume e marcações graves reiterativas, características que não são usualmente associadas às performances femininas no mundo da música, o que não significa que elas não podem ser feminilizadas” (pág. 7).
Assim como no metal, outros gêneros de rock pesado acionam chaves performativas similares, mas apontando diferentes alternativas. Por exemplo, a performance vocal da banda Anti-Corpos (de São Paulo) apresenta outro tipo de negociação. A banda se apresentou no segundo dia (19/10), tocando um hardcore nervoso e berrado. Os gritos de Rebeca Domiciano, a vocalista, eram agudos e sugeriam uma urgência desesperadora. Porém, apesar dos berros, reconhecemos a voz feminina.

A performance vocal unida à agressividade rítmica da banda sugere situação de protesto, de guerra, de perigo. Ainda que muitas vezes não conseguíssemos entender as letras que Rebeca berrava, a própria música, aliada à ocupação territorial de três mulheres no palco (e um baterista masculino) já funciona como uma sugestão de protesto. Não à toa, a Anti-Corpos é um grupo militante das causas femininas. Da mesma forma, a banda Dirty Mary (do Rio de Janeiro) também apresenta militância em favor do feminismo e se apresentou no mesmo dia. Ambas possuem influência de bandas fundadoras do movimento Riot Grrrl, como Bikini Kill e Bratmobile.
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*Fotos: Danilo Sérgio