The Shaggs foi uma banda feminina americana formada por três irmãs, criada em função da insistência de seu pai, Austin Wiggin, que acreditava que suas filhas atingiriam o estrelato. As Shaggs foram detonadas pela imprensa da época (por volta de 1969), em função de sua evidente desafinação e total incapacidade de tocar instrumentos de forma minimamente virtuosa. Porém, aos poucos, a banda foi ganhando legitimidade entre alguns interlocutores do rock.
O músico Frank Zappa afirmou, em entrevista à Playboy em 1970, que as Shaggs eram melhores do que os Beatles. Seu estilo de composição cru, natural e intuitivo foi louvado como um trabalho de Art Brut (estética vanguardista criada em 1945, que primava pela liberdade de criação). Depois, com o surgimento do punk, do indie rock e do lo-fi, e sua ênfase em uma estética musical suja e tosca, as Shaggs tornaram-se objeto de culto – sendo elogiadas por artistas como Kurt Cobain – como um inovador grupo de música não convencional.
O caso das Shaggs é bom para pensarmos como uma música considerada ruim e mal executada pode tornar-se “cult” através do papel de agentes legitimadores de nossa cultura, que possuem um grande poder em dizer o que é e o que não é bom. O que deve e o que não deve ser ouvido.

Simon Frith (1996) aborda a questão dos julgamentos de valor, afirmando que tais valorações “não são simples rituais sobre ‘eu gosto / você gosta’ (…) eles são baseados em razão, evidência, persuasão” (p 4). São opiniões valorativas fortemente baseadas no gosto pessoal, envoltas em debates e argumentos persuasivos. Frith ressalta que tais julgamentos dizem muito acerca da pessoa quem os faz, ou seja, são subjetivos e pessoais.
Segundo autor, a questão central de legitimidade no julgamento de valor não é se determinado artista é bom ou ruim, “mas quem tem a autoridade para dizer isto” (p. 9). Assim, muito do que está em jogo no julgamento de determinado artista é quem está dizendo e qual posição social esta pessoa ocupa.
Howard Becker (1984) reforça a ideia, dizendo que o que torna uma arte “grande” é uma questão de opinião. O autor ressalta que “algumas opiniões são melhores que outras, porque seus postulantes têm mais experiência nos trabalhos e gêneros em questão e podem fazer discriminações mais refinadas e justificáveis”  (p. 47). Esses agentes teriam, portanto, muita intimidade com as convenções que rodeiam tais trabalhos. Alguém mais frequente e acostumado com determinadas produções artísticas tem mais ciência das designações convencionais. Ele pode participar ativamente destas convenções e dizer o que é e o que não é legítimo, valorando positiva ou negativamente uma música.

Do trash ao cult. Do inferno ao céu. Tudo depende de quem diz, e principalmente, da posição que este agente legitimador ocupa em nossa sociedade. Ou canta. Ou grunhe.

Referências

All Music Guide: The Shaggs
– FRITH, Simon. Performing rites: on the value of popular music. EUA: Harvard University Press, 1996.
– BECKER, Howard: Art Worlds. University of California Press, 1984.